
Do hospício ao parque
Prédio desativado no IMNS (Júlia Leite)
A história do Instituto Municipal Nise da Silveira tem sua origem em 1911, quando foi inaugurada a Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro. Foi a primeira instituição psiquiátrica feminina do Brasil, criada com o objetivo de resolver o problema de superlotação de pacientes femininas no Hospício Nacional de Alienados.
Em 1938 o HNA, na Praia Vermelha, foi transferido para a Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro, que passou a se chamar Centro Psiquiátrico Nacional. Ao longo da década de 1940, toda a estrutura médica e administrativa foi realocada no CPN, incluindo médicos, funcionários e pacientes.
Nise da Silveira começou a trabalhar no CPN, ou Centro Psiquiátrico Pedro II, em 1944. Em 1946, fundou a STOR - Seção de Terapêutica Ocupacional, onde usava o afeto como tratamento. Com atividades expressivas, buscou estimular a tendência autocurativa do inconsciente de seus pacientes. Para estruturar sua prática, criou o Museu de Imagens do Inconsciente.
Essa atitude foi o ponto de partida da transformação do território que hoje é conhecido como Instituto Municipal Nise da Silveira. Com a emergência de um movimento que buscava o fechamento dos hospitais psiquiátricos, aos poucos, iniciativas como a do MII passaram a ter mais visibilidade.
Durante os anos em que se desenvolveu a Reforma Psiquiátrica, o Centro Psiquiátrico Pedro II tornou-se um importante espaço de discussões do movimento. Foi palco de ações inovadoras na assistência à saúde mental da época. Visando pôr em prática as propostas da reforma, enfermarias foram fechadas e dispositivos alternativos de tratamento foram criados.
Até o final dos anos 90, tais inovações coexistiram com o tratamento manicomial oferecido há décadas no CPPII, que ia sendo enfraquecido. Em 2000, as mudanças foram oficializadas com o decreto 18.917, que estabeleceu a municipalização do espaço e o renomeou Instituto Municipal Nise da Silveira.

Espaço do Centro de Estudos, Teinamento e Aperfeiçoamento Paulo Elejalde (CETAPE) e do Centro de Documentação e Memória (CDM) (Júlia Leite)
Desde então, o IMNS desenvolveu uma rede de cuidados extra-hospitalares ao mesmo tempo em que desconstruiu sua estrutura de hospital psiquiátrico, e vem consolidando essa desconstrução através de dispositivos e ocupações que propõem o tratamento da loucura em liberdade.
Junto à construção destes espaços dedicados ao acolhimento da loucura, o instituto também buscou se integrar à cidade. Com atividades abertas ao público, se tornou um lugar de convivência, cultura, lazer e preservação da história da psiquiatria. Um espaço que simboliza a luta pelo tratamento em liberdade e promove a inclusão de seus frequentadores na comunidade.
Após a municipalização houve um grande investimento em ações de memória, arte, cultura e formação acadêmica. Nas últimas décadas, o Instituto Municipal Nise da Silveira se consolidou como importante dispositivo de assistência à saúde mental no Rio de Janeiro e oferece hoje em seu espaço uma série de atividades e serviços que foram sendo criados ao longo dos anos.
Buscando a inclusão do louco ao resto da comunidade, foi criado o bloco carnavalesco Loucura Suburbana, com a proposta de romper os muros do hospício e inserir a loucura no espaço da cidade. Anos depois, o bloco se expandiu e desenvolveu o Ponto de Cultura Loucura Suburbana: Engenho, Arte e Folia, consolidando ainda mais seu papel de fazer da música um mecanismo de inserção social.
Oferecendo atividades gratuitas e abertas à população, o ponto de cultura insere o samba e o carnaval na rede assistência à saúde mental, no tratamento da loucura. Possui uma sala de espetáculos, uma sala de dança, um barracão de fantasias, oficinas musicais, ateliês de fantasias e uma editora.

Barracão do Loucura Suburbana (Júlia Leite)
Ao longo dos anos, muitos pacientes de longa permanência foram desinstitucionalizados e transferidos para espaços transitórios de moradia. E, para garantir a continuidade no tratamento destes pacientes egressos, foram criados também 3 CAPS no território do Instituto: CAPS II Clarice Lispector, CAPS Ad III Raul Seixas e CAPS III EAT Severino dos Santos. Há também o Ambulatório de Atenção Psicossocial Nise da Silveira, que disponibiliza atendimento psicoterápico.
Para promover a inclusão dos participantes no espaço da cidade, foi criado o Centro de Convivência e Cultura Trilhos do Engenho, que oferece atividades dentro e fora do IMNS. Com oficinas, atividades de lazer e passeios por todo o Rio de Janeiro, o Trilhos do Engenho promove a convivência e a integração de seus frequentadores com a comunidade.
Para garantir a preservação da memória da loucura e do território, funcionam hoje no IMNS o Centro de Documentação e Memória e o Memorial da Loucura. O CDM tem como objetivo preservar todo o acervo do instituto, visando ampliar o acesso ao público da história da loucura e da psiquiatria no Brasil.
O acervo é composto por uma grande quantidade de arquivos que retratam as condições de tratamento oferecido aos pacientes psiquiátricos ao longo dos séculos. Inclui também, além de documentos do hospital do Engenho de Dentro, o vasto acervo arquivístico e bibliográfico do Hospital Pedro II, na praia Vermelha, o primeiro manicômio do país.

Memorial da Loucura (Júlia Leite)
Já o Memorial da Loucura preserva a memória do espaço através de exposições, ações de produção de memória, atividades culturais, oficinas e projetos de geração de renda. O espaço expõe uma série de materiais e objetos do hospício e itens do acervo arquivístico, contando, a partir deles, a história da loucura no território do Engenho de Dentro.
Também com o objetivo de promoção de memória e conhecimento, foi criado o Centro de Estudos, Treinamento e Aperfeiçoamento Paulo Elejalde. O CETAPE realiza uma série de atividades, como pesquisa, cursos, estágios, voluntariado, atividades extra curriculares em parceria com instituições de ensino, programa de residência, dentre outras.
O Espaço Travessia - Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde é um espaço que promove o acolhimento dos frequentadores através da cultura e da arte. Promovendo a inclusão com atividades, cursos, passeios e oficinas que envolvem os mais diversos formatos: pintura, desenho, argila, música, audiovisual, entre outros.
Localizado em dois andares de enfermarias desativadas do IMNS, o Espaço Travessia é um local de convívio, de exposições, oficinas de pintura, dança e teatro. Recebe artistas do Rio de Janeiro e de todo o Brasil, com ateliês e espaços para exposição de projetos, e também pesquisadores de diversas áreas. É um lugar de divulgação de artistas e de promoção da saúde mental através da arte.
Exposição no Espaço Travessia (Júlia Leite)

Com o objetivo de desenvolver o esporte como mecanismo de promoção de saúde mental e qualidade de vida, foi criado o Polo Esportivo Nise da Silveira. O serviço oferece diversas modalidades, como futebol, capoeira, xadrez, Muay Thai, boxe, pilates, natação, hidroginástica, caminhada, treinamento funcional, dentre muitas outras. Para isso, conta com um ginásio e realiza parcerias com empresas e organizações governamentais.
O espaço Ciclos - Polo de Geração de Renda promove a inclusão social através da geração renda para os frequentadores. O Polo Ciclos realiza oficinas de confecção de diversos produtos, como roupas, acessórios e itens decorativos, e promove eventos e ações visando a venda destas peças. Também é responsável pelo bistrô Quideliche, localizado junto ao Memorial da Loucura.
O Polo de Atividades Terapêuticas Assistidas com Animais (PATAA) dá continuidade ao trabalho de Nise, oferecendo atividades terapêuticas a partir da interação com gatos. No terreno do instituto há uma grande quantidade de gatos abandonados, cuidados por funcionários e protetores de animais. Alguns destes gatos passam a integrar o PATAA como co-terapeutas, enquanto outros são colocados para adoção pelo projeto.

Garagem Criativa Gladys Schinchariol, parte do Museu de Imagens do Inconsciente (Júlia Leite)
Por último, segue em funcionamento no Instituto Municipal Nise da Silveira o Museu de Imagens do Inconsciente. Criado em 1957 por Nise, hoje dispõe de 4 espaços: Garagem Criativa Gladys Schincariol, Espaço Humberto Franceschi, Ateliê Fernando Diniz e Espaço Almir Mavignier. O museu possui um acervo de mais de 400 mil obras, muitas delas tombadas como Patrimônio Cultural da Humanidade pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O Museu de Imagens do Inconsciente é gerido pela SAMII e oferece em sua estrutura duas exposições permanentes: uma que conta a trajetória de Nise e outra que tem como enfoque a produção artística dos pacientes. Além das exposições externas temporárias, também promove ateliês para os frequentadores, oficinas abertas ao público, cursos, palestras, debates, grupo de estudos, centro de pesquisa, dentre outras atividades.

Entrada do Museu de Imagens do Inconsciente (Júlia Leite)
Parque urbano
Parque urbano
O IMNS vem trabalhando há décadas para se tornar um espaço de acolhimento da loucura, de tratamento em liberdade. Para fechar o manicômio, foi criada uma rede de cuidado, de integração e inclusão da loucura, dos indivíduos taxados como loucos. Antes um lugar de segregação, a proposta é que siga se transformando em um espaço de convivência e inclusão.
Com o processo de desinstitucionalização chegando ao fim, com o fechamento das internações no instituto, fez-se necessário integrar o hospício à cidade, derrubar os muros que silenciavam a loucura e ressignificar seu território. Para isso, está sendo construído um parque urbano junto às construções históricas e os serviços atuais de seu espaço.
No dia 14 de setembro de 2021 foi publicado o decreto municipal n°49.407, que criou o Parque Nise da Silveira e estabeleceu o início das obras. Como ato simbólico, no mesmo dia foram derrubados alguns metros do grande muro que contornava o IMNS, uma herança do hospício, e foram substituídos por um gradil.
O decreto estabeleceu a construção de uma área de lazer para os moradores da região. Um espaço arborizado, para inserir o IMNS em seus arredores e incentivar a convivência entre frequentadores, moradores da região e o espaço. Promover a preservação da memória do território e ampliar o acesso ao trabalho realizado em seus serviços e dispositivos, que permaneciam, de certa forma, isolados entre os muros.
Já no dia 26 de outubro de 2021, foi encerrada a hospitalização no Instituto Municipal Nise da Silveira com a saída do último paciente de longa permanência que seguia institucionalizado. Há décadas o instituto esperava por este dia, que marcou não só a sua consolidação como espaço de cuidado em liberdade, mas principalmente um importante acontecimento para a história da psiquiatria brasileira: o fechamento do primeiro e maior hospício do país.
Ao longo dos anos de desinstitucionalização, os egressos foram sendo realocados em residências terapêuticas pela cidade, com acompanhamento de equipes dos CAPS. A saída simbolizou para os pacientes a conquista da liberdade e a retomada da cidadania. Para o território, significou o fim do isolamento da loucura.
Em março de 2022, a primeira parte do parque urbano foi inaugurada: o bosque Dona Ivone Lara. Em homenagem à cantora e compositora, o bosque possui 6 mil metros quadrados e tem espaços de piquenique, caminhada, parque infantil, exposições ao ar livre, além de uma grande área de jardim.
Dona Ivone Lara, além de revolucionar o samba e se tornar uma das primeiras mulheres negras a se formar em um curso superior no país, teve também um importante papel na área da saúde mental. Formada em enfermagem e assistência social, especializou-se em terapia ocupacional e trabalhou durante 30 anos ao lado de Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional.
Desenvolveu, durante décadas, a terapia musical dentro da STOR, trazendo alegria para a triste situação dos manicômios. Criou uma oficina de música e promoveu eventos e festas para os internos, usando estas atividades como tratamento. Assim como Nise, sua proposta impactou o cuidado em saúde mental e seu trabalho teve grande influência na Reforma Psiquiátrica.

Homenagem à Dona Ivone Lara no bosque (Júlia Leite)
A partir da inauguração do bosque, o instituto se estabelece também como um espaço dedicado ao lazer da comunidade, além de todas as outras funções. Um lugar de contato com a natureza em meio a um território histórico, que oferece diversos serviços e atividades de promoção de memória, cultura e saúde mental. Com a criação do parque urbano, o Instituto Municipal Nise da Silveira e suas atividades se integram ainda mais à cidade.
Hoje, o IMNS é um espaço aberto ao público e recebe todos os dias frequentadores antigos e novos, moradores do entorno, turistas, estudantes, pesquisadores, entre muitos outros visitantes. O Instituto Municipal Nise da Silveira está localizado na Rua Ramiro Magalhães, 521, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, e funciona de segunda a sexta de 8h às 17h e aos sábados de 9h às 16h. Alguns serviços têm horários de funcionamento distintos.

Áreas do Instituto Municipal Nise da Silveira (Júlia Leite)


Mapa do IMNS (IMNS)