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O lugar da diferença

Em períodos da Idade Média, o louco era visto como vítima de uma experiência trágica, ou até como fonte de sabedoria, mas já ocupava um lugar de segregação. A partir do século XVIII, a loucura passou a ser alocada em manicômios, asilos e hospitais psiquiátricos, a isolando ainda mais. Mas sem haver interesse da medicina na condição do “louco”. Aprisionada, a loucura passou a dividir o manicômios com todos os degenerados, desviantes e quaisquer outras pessoas cujas experiências transitassem pelo desatino.

A loucura se misturou aos outros cativos e se tornou só mais uma experiência de falha moral a ocupar um lugar no grande grupo da desrazão. O hospital psiquiátrico é, desde sua criação, um território que confina qualquer indivíduo que desvie do “normal” para a sociedade, sob o pretexto de reajustamento ético. Reajuste este feito a partir da violência. E, como experiência silenciada há séculos, a loucura e os “loucos” não puderam escrever suas próprias histórias. Foram condenados ao silêncio, tendo seus saberes apagados e sua linguagem desqualificada.

Ao final do século XVIII, a loucura seguiu sendo vista como um confronto à normalidade das condutas. Foi só no século XIX que o “louco” começou a receber tratamento médico. Philippe Pinel, conhecido como “pai da psiquiatria”, propôs que a loucura passasse a ser isolada sob o domínio da ciência, se desvencilhando das questões sociais e morais que a isolaram inicialmente. Os internos começaram a ser percebidos por seu potencial de geração de conhecimento científico e à loucura foi atribuído um valor psicológico. Criou-se a noção de doença mental.

Prédio branco de três andares, muito extenso. Nele há dezenas de janelas gradeadas.
Prédio da internação, 3 andares e muitas janelas gradeadas.

Construção dos prédios do Centro Psiquiátrico Nacional, após a transferência de atividades para o espaço da Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro (Acervo IMNS)

Prédio com quatro andares e muitas janelas gradeadas. À esquerda, uma construção pequena. Ao centro, em frente ao prédio, uma arvore e pacientes transitando.

Com a criação do conceito de doença mental, a loucura passou a estar suscetível a uma série de tratamentos. Eletroconvulsoterapia, choques insulínicos, agressões, banhos frios, são só algumas das práticas enfrentadas pelas pessoas condenadas ao silêncio dos manicômios. Em 1935, Egas Moniz inventou a lobotomia e a psicocirurgia se popularizou como eficaz “tratamento” aos pacientes psiquiátricos que causavam incômodo.

O método consistia em destruir as ligações entre os lobos frontais e o resto do cérebro, o que supostamente amenizaria os sintomas das doenças mentais. O resultado, no entanto, era apatia, desorientação, alteração da personalidade, embotamento afetivo, enfim, uma série de efeitos colaterais irreversíveis, sem a melhora daquilo que se propunha tratar. A lobotomia era muito eficaz como método de silenciamento.

Sala destinada à realização de eletroconvulsoterapia (Acervo IMNS)

Sala do hospital com maca, equipamento de eletroconvulsoterapia, armário de medicamentos e outros acessórios.

Na década de 1950 foi criada a Clorpromazina e outros psicofármacos, medicamentos específicos para o tratamento de doenças mentais. Método que se torna, até os dias atuais, o mais popular para tratar a loucura. Com potencial terapêutico na dosagem adequada, estes remédios passaram rapidamente a ser utilizados no mundo todo. No hospital psiquiátrico, os psicofármacos representaram uma nova forma de controle, desempenhando a função de amortecimento dos pacientes, tornando-os dóceis e apáticos. E, com isso, surgiu uma nova forma de lidar com a loucura: as camisas de força químicas.

 

Após este panorama geral, um breve resumo da trajetória da loucura no mundo, é importante esclarecer que, no Brasil, a história não foi diferente.

 

Em 1830 foi fundada a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, e a loucura passou a ser vista a partir do diagnóstico de doença mental. Com isso, as pessoas tidas como “loucas” foram destinadas ao “tratamento” e à reclusão em hospitais psiquiátricos.

 

Em 1841, o então Imperador D. Pedro II sancionou o decreto que criou o primeiro estabelecimento destinado ao tratamento da loucura no Brasil. Inaugurado em 1852, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, então capital do Império, o Hospício de Pedro II passou a receber todas as pessoas desviantes dos padrões morais da época, o que resultou em sua superlotação. Em 1890, com a Independência do país, o hospital passou a se chamar Hospício Nacional de Alienados.

 

Em 11 de julho de 1911, foi criada a Colônia de Alienadas do Engenho de Dentro, estabelecimento destinado apenas às mulheres. Anos mais tarde, em 1938, a Colônia passou a se chamar Centro Psiquiátrico Nacional e a receber os doentes do Hospício Nacional de Alienados (H. de Pedro II), que seria fechado.

Cartão postal com fotos dos diferentes prédios e setores do CPN.

Cartão postal do Centro Psiquiátrico Nacional (Acervo IMNS)

É neste ponto que, em 1944, surgiu para trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, a psiquiatra Nise da Silveira, cuja história abordarei com maior profundidade a seguir.

 

Nesta época, os hospitais psiquiátricos brasileiros ofereciam a mesma série de tratamentos do período: lobotomia, eletroconvulsoterapia, choques insulínicos, agressões. “Tratamentos” estes que frequentemente levavam à morte. Além disso, os manicômios estavam frequentemente superlotados, já que reuniam todo o tipo de desviantes do “comum”. O premiado livro-reportagem Holocausto Brasileiro (2013), da jornalista Daniela Arbex, faz uma denúncia sobre o maior genocídio ocorrido em território brasileiro, no Hospital Psiquiátrico de Barbacena, e registra as condições dos tratamentos ocorridos nestes espaços.

© Júlia Leite 2025

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