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Fora da norma

No Rio de Janeiro, em meio ao Engenho de Dentro, está localizado o Instituto Municipal Nise da Silveira (IMNS). O Instituto ressignifica o espaço do que um dia foi o Centro Psiquiátrico Nacional e desempenha diversas funções: preservação da história, serviços de assistência à saúde mental, centro de estudos e pesquisa, dentre outras. Seu nome é uma homenagem à Nise da Silveira (1905-1999), psiquiatra alagoana cujo falecimento completou 25 anos em 2024.

Para contar a história do IMNS, bem como da médica que o nomeia, e explicar o que é hoje o Instituto, é necessário falarmos da história da loucura. Pensar sobre loucura nos leva a Michel Foucault, o filósofo francês que teorizou toda a trajetória em seu livro A história da loucura (1961). Em sua obra, Foucault se recusou a criar um novo conceito, limitando-se a abordar o que é visto como loucura na sociedade e como esses conceitos foram se transformando no decorrer dos séculos.

Atualmente a loucura ocupa o espaço da doença mental, mas atravessou muitos espaços e significados ao longo do tempo. Em períodos vista como experiência trágica, já em outros tida como falha moral, a loucura atravessa a história há séculos indecifrada, mas sempre destinada à exclusão, nas mais diferentes formas. Foucault argumenta que a loucura só pode existir em uma sociedade. Para que ela seja constatada, há de haver uma norma, um modelo de comportamento que não deve ser desviado. Ela não é, portanto, um objeto natural, é criada pelo próprio homem e pela sua percepção do que é um comportamento desviante.

João Frayze-Pereira, em seu livro O que é loucura? (2017), afirma que, para Foucault, a loucura surge da relação com a razão, do ato que distancia razão e não-razão. Mas estas relações, que acabaram por conceitualizar a loucura, foram se transformando ao longo dos séculos, ocupando espaços distintos e recebendo tratamentos diferentes. O que há em comum, no entanto, é que o lugar ocupado pela loucura, mesmo que de diferentes formas, é, há séculos, um lugar de exclusão, de silêncio.

Pintura colorida e abstrata de uma paisagem com árvores e uma cerca com vegetação. As cores são fortes, como azul, verde, amarelo e vermelho.

Isaac Liberato (Acervo MII)

© Júlia Leite 2025

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