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Nise da Silveira (Acervo IMNS)

Nise, arte e afeto

Nise da Silveira nasceu na cidade de Maceió, Alagoas, em 1905. Se formou pela faculdade de medicina da Bahia em 1926, a única mulher em uma turma de 157 alunos. Especializou-se em psiquiatria mas, desde então, recusava-se a aceitar os agressivos métodos de tratamento da época.

Se mudou para o Rio de Janeiro em 1927, junto de seu marido Mário Magalhães, médico sanitarista, que foi seu colega de turma na faculdade. Estagiou na clínica neurológica de Antônio Austregésilo em 1932. Em 1933, prestou concurso e começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha. Em 1936, em meio à perseguição política do governo de Getúlio Vargas, uma enfermeira a denunciou por possuir livros marxistas em seus pertences. Assim, Nise foi presa por 15 meses no presídio Frei Caneca.

Três fotografias de Nise da Silveira em diferentes momentos de sua juventude. Em todas elas, tem a expressão firme e um olhar sério.

Nise da Silveira (Acervo IMNS)

Após sair da prisão, passou meses reclusa sob a ameaça de ser presa novamente. Se dedicou, neste período, aos estudos e à leitura de Spinoza, que considerava uma grande inspiração. A partir daí, começou a desenvolver a ideia de que o encarceramento era um dos motores da loucura, a impulsionando.

Quando presenciou as torturas sofridas pelos prisioneiros políticos, percebeu as semelhanças entre o presídio e o hospital psiquiátrico. Observou também que os presos desenvolveram diversas atividades para não padecer mentalmente.

Ao retornar ao serviço público, em 1944, foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro. Foi designada a trabalhar numa enfermaria, onde se deparou com choques elétricos, de insulina e de cardiazol. Eram os tratamentos usuais da época. O médico que chefiava a enfermaria começou apresentando o eletrochoque.

Nise conta que observou o procedimento e, quando trouxeram o próximo paciente, o médico disse a ela para apertar o botão que acionava as descargas elétricas. Ao que respondeu: “não aperto!”. Este foi, para Nise, o ponto de virada em sua prática como médica psiquiatra. A partir daí, decidiu que iria na contracorrente, se opondo a estes tipos de tratamento. Para ela, essa prática trazia muitos riscos e poucos resultados.

Foi então que, em 1946, foi falar com o diretor do centro psiquiátrico, Dr. Paulo Elejalde, e disse a ele que precisava de outra função, já que não servia para ocupar a função de médica. O diretor sugeriu que ficasse responsável pela criação e direção da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do hospital, onde, até então, existiam apenas algumas ocupações para os pacientes, em sua maioria trabalhos braçais e de limpeza.

Assim começou, nas palavras de Nise, uma “outra etapa da minha vida, uma bela etapa de meu trabalho”.

Nise já na velhice, com expressão serena, segura seu gato de cor preta e branca, frajola.
Duas fotografias de Nise. Em uma, ela e seu gato observam a janela em contraluz. Na outra, Nise está sentada em seu escritório e alimenta dois cachorros com petiscos, outro cão aguarda atrás dela.

Nise e seus animais (Acervo IMNS)

A terapia ocupacional proposta por Nise era intencionalmente diferente da utilizada habitualmente nos hospitais. Sua preocupação era que as atividades oferecidas tivessem um efeito terapêutico nos pacientes e, para tal, passou a buscar fundamentação científica para amparar sua prática. Seu trabalho, no entanto, não repercutiu de forma positiva entre seus pares.

Na época, em meio a tratamentos como choques elétricos, coma insulínico, psicocirurgia e psicotrópicos, um método que utilizava a arte e a expressão como agentes terapêuticos era visto como ingênuo, apenas uma forma de distração. Nise enfrentou uma série de dificuldades e boicotes, mas seguiu firme com sua proposta.

Há duas esculturas, a primeira é extremamente detalhada: um busto com feições delicadas e olhar firme, a cerâmica é bem trabalhada, lisa e brilhante. A segunda escultura apresenta um rosto rústico. Os olhos e boca são buracos e o nariz é triangular. Os traços são desformes.

Obras do artista Lúcio Noeman, antes (esquerda) e depois (direita) da realização de lobotomia (Acervo Museu de Imagens do Inconsciente)

A psiquiatra acreditava que os efeitos curativos dos medicamentos psicotrópicos são ilusórios. Podem diminuir o tempo de internação, mas não interferem no número de reinternações. Para ela, o objetivo dos tratamentos psiquiátricos não pode seguir sendo apenas a remoção transitória dos sintomas.

A Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação oferecia uma série de atividades, divididas por setores. As que demandam um esforço característico do trabalho: costura, encadernação, marcenaria, cestaria, sapataria e artes aplicadas. Atividades recreativas, como jogos, festas, cinema, rádio, televisão, esportes, passeios e salão de beleza. Atividades culturais, como escola e biblioteca. E as atividades expressivas: pintura, modelagem, música e teatro.

Segundo Nise da Silveira, quando o ego está profundamente abalado, as atividades de trabalho se tornam mais difíceis e, por isso, se propôs a dar maior ênfase às atividades lúdicas. Tais atividades geram prazer e investimento afetivo, além de permitir a expressão espontânea de emoções. Para ela, “dar forma objetiva às imagens subjetivas, às experiências internas, é estar no caminho da cura” (Silveira, Terapia Ocupacional: teoria e prática, 1979).

Inicialmente apenas mais um setor em meio às tantas atividades oferecidas pela STOR, as atividades de desenho e pintura espontâneos revelaram ser de enorme interesse científico e artístico. Assim, o ateliê de atividades expressivas rapidamente se tornou popular. A reunião dos internos em um espaço de convivência foi capaz de gerar afeto entre eles e os estimular criativamente.

Nise da Silveira e Fernando Diniz (Arquivo IMNS)

Fernando Diniz trabalha em uma escultura com formato de estrela com muitas pontas. Nise da Silveira observa. Fernando tem uma expressão alegre e serena.

Para Nise, a pintura e a modelagem permitiam acesso mais fácil ao mundo interno dos esquizofrênicos, desde que realizadas em um ambiente de afeto e convivência. Era este o seu principal objetivo com estas atividades, não só em termos de pesquisa teórica, mas também como tratamento. Para defender a eficácia terapêutica das atividades expressivas, Nise se baseou nas proposições do filósofo Spinoza, do escritor Antonin Artaud e do psiquiatra Carl Jung. Ela entendia que as imagens criadas eram instrumentos únicos para o estudo do inconsciente dos internados e que, por isso, era essencial arquivar, catalogar e estudar as mesmas.

Com a primeira exposição dos trabalhos no Centro Psiquiátrico Nacional em 1946, as obras dos pacientes foram reconhecidas como expressões impressionantes das imagens da loucura. E, em 1947, foi realizada a primeira exposição externa destas obras no Ministério de Educação e Cultura, no Rio de Janeiro. A mostra “Nove Artistas de Engenho de Dentro” foi levada também para o Museu de Arte Moderna em São Paulo e para o salão nobre da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Já a primeira exposição internacional ocorreu em 1950, no I Congresso Internacional de Psiquiatria, em Paris.

Pintura abstrata com um rosto rodeado por pétalas, sendo a face o botão da flor. Há ramos de flores e desenhos abstratos. Nas cores azul, verde, marrom, preto, amarelo e vermelho.
Pintura abstrata de uma espiral preta com formato de engrenagem. Há várias camadas da mesma espiral sobrepostas em diferentes cores.
Pintura das dependências do hospital, há pequenas construções em formatos de casa e muitas árvores. Nas cores azul, verde, branco, vermelho e amarelo.

Pinturas dos artistas Adelina Gomes, Fernando Diniz, Emygdio de Barros e Raphael Domingues (da esq. para a dir.) (Acervo MII e IMNS)

Pintura de rosto colorido e abstrato. Muitas texturas e diferentes cores. Azul, verde, amarelo, vermelho, roxo. Os olhos são grandes circulos verdes;

Em 1952, com a intenção de preservar e pesquisar o acervo artístico dos psicóticos, Nise da Silveira fundou o Museu de Imagens do Inconsciente. Hoje, tal acervo chega a cerca de 400 mil obras e o MII é objeto de estudos e visitas diárias. Mesmo com a importância das obras para a psiquiatria, Nise reconhece seu valor estético. Mas enfatiza que, se fossem vendidas, as expressivas imagens do inconsciente seriam dispersas e não haveria museu. Seu objetivo, ao contrário, é terapêutico.

Ao encontrar fundamentação no psiquiatra suiço Carl Gustav Jung para estudar as obras dos ateliês de atividades expressivas, Nise fundou, em 1955, o Grupo de Estudos C. G. Jung. A proposta era difundir as ideias de Jung através da realização de cursos, conferências e exposições, usando como base o acervo do MII. Nise da Silveira foi a presidente do grupo até o dia de sua morte, e o grupo segue em atividade até a atualidade.

Em 1956, a psiquiatra alagoana fundou a Casa das Palmeiras: uma instituição de atendimento externo a pacientes psiquiátricos. Sem regime de internação, a CP opera nos moldes em que Nise via a psiquiatria: tratamento em liberdade, com atividades expressivas. O espaço é pioneiro no cuidado em liberdade, e funciona até os dias atuais.

Em 1957, Nise viajou à Suíça para encontrar Jung pela primeira vez no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Na ocasião, o suíço abriu a exposição do Museu de Imagens do Inconsciente, Esquizofrenia em Imagens.

Figura abstrata com pernas e rosto bem definidos. Tinta preta no fundo branco.
Pintura de figura com chapéu e olhos bem grandes. O corpo é pequeno. Tinta preta no fundo branco.
Pintura abstrata de uma mesa de comida, bule e frutas na cor preta e com o fundo branco.
Pintura abstrata de uma mesa com um bule e diversos elementos nas cores verde, azul, laranja, amarelo.

Obras de Raphael Domingues (Acervo MII)

Na década de 1970, em meio à turbulenta ditadura militar, a STOR foi esvaziada e o Museu passou a abrigar as atividades remanescentes (recreativas, culturais e referentes ao trabalho), além das atividades expressivas. O Centro Psiquiátrico Nacional havia atingido o auge do confinamento, seus pavilhões estavam lotados dos chamados pacientes crônicos, sendo medicados indiscriminadamente. Com a finalidade de manter o funcionamento do museu, foi criada a Sociedade dos Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, que completou 50 anos em 2024.

Nise foi diretora da STOR desde a fundação até ser aposentada compulsoriamente em 1975. No dia seguinte à aposentadoria, Nise apareceu para trabalhar e se apresentou como a nova estagiária. Seguiu trabalhando com seus clientes, como chamava seus pacientes, até falecer em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos.

Um grupo de pacientes da STOR se reúne para realizar uma atividade teatral. Nise da Silveira está no centro, sorrindo junto aos pacientes.

Nise da Silveira, pacientes e funcionários do CPN em atividade da STOR (Acervo IMNS)

Nise é lembrada por quem a conheceu como uma figura singular. Ferreira Gullar, amigo da médica e autor do livro Nise da Silveira: Uma psiquiatra rebelde, a descreve como uma figura revolucionária. Ela mesma se intitulava uma contracorrente. Contrariou o saber psiquiátrico hegemônico, desafiando a ideia de que o louco é incapaz de sentir afeto e questionando os tratamentos violentos.

Com isso, sua prática se estabeleceu em conflito com os pensamentos, filosofias, valores e tratamentos de sua época. Para a psiquiatria, a loucura era um processo de degeneração progressiva do cérebro, que só poderia ser retardado com a intervenção direta, fossem psicocirurgias, choques ou psicofármacos. Nise se recusava a acreditar nisso. Não aceitava o sofrimento imposto aos pacientes nos hospitais psiquiátricos, então encontrou um novo caminho: as atividades expressivas.

Desde o início, confiou em sua intuição de que o trabalho criativo e a expressão artística poderiam contribuir para expressar e reordenar os conflitos internos dos pacientes. Ao longo dos seus anos de trabalho na STOR, comprovou suas suspeitas e ganhou consistência teórica para sua proposta. Na prática terapêutica de Nise, o louco deixa de ser vítima de violência para receber um tratamento com base no afeto.

Nise falando e apontando para uma pintura feita por um dos pacientes.

Nise da Silveira (Acervo IMNS)

A proposta de Nise era combater os violentos métodos de tratamento da época, colocando os loucos como sujeitos de direitos, e desafiando os sujeitos em espaços de poder, os médicos. Para Luiz Carlos Mello, em seu livro Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde, o trabalho da médica teria como base três princípios: a constatação de que a psique, ou a mente, tem uma tendência inerente a curar a si própria; a importância de criar um ambiente afetivo que possa favorecer o surgimento desses esforços autocurativos; e o destaque nas atividades expressivas como método de tratamento.

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É fascinante observar o ondulado do movimento do pensar e do sentir em suas correntes e contracorrentes (...). Os diletantes gostarão de espiar, numa perspectiva histórica, o percurso acidentado das contracorrentes, vê-las crescer vagarosas como pequenos veios d'água, depois se avolumarem, tomarem formas diversas, trazendo aqui e ali compensação às unilateralidades das correntes dominantes, tentando preencher suas lacunas, atuando nos tempos modernos com a força de impulsos transformadores vindos de longe.

Nise da Silveira

© Júlia Leite 2025

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