Psiquiatria Rebelde
Nise da Silveira tinha uma visão distinta da psiquiatria sobre o conceito de loucura. Para ela, a experiência da loucura não é restrita aos loucos, os fenômenos que os acometem não diferem dos mecanismos que fazem parte da vida psíquica normal. O que distingue o são e o louco é o grau da experiência, a capacidade de retornar desse estado de descontrole.
Os loucos seriam, então, aqueles que por algum motivo entraram em conflito com o mundo exterior, se perdendo em si mesmos e ficando incapazes de discernir entre fantasia e realidade. No catálogo da exposição Os Inumeráveis Estados do Ser (1986), Nise escreveu sobre a atividade da STOR e abordou o estigma de que os loucos são seres embrutecidos. Através da arte, os pacientes do Centro Psiquiátrico Nacional puderam provar o contrário.
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Antes que se procurasse entendê-los, concluiu-se que tinham afetividade embotada e a inteligência em ruínas. Hoje está demonstrado que mesmo após longos anos de doença a inteligência pode conservar-se intacta e a sensibilidade vivíssima.
Nise da Silveira

Adelina Gomes (Acervo MII)
Para a psiquiatra rebelde, os ateliês de pintura são uma escola viva. Onde são levantados problemas complexos de desagregação da psique, que, para serem estudados, demandam buscar ajuda fora do campo da psiquiatria: na arte, nos mitos, nas religiões, na literatura. Enfim, nas diferentes formas de expressão das mais profundas emoções humanas.
As atividades expressivas não são apenas um método de compreensão do processo psicótico dos pacientes, são verdadeiros agentes terapêuticos. E isso foi comprovado repetidas vezes no ateliê de Nise, demonstrando a validez da terapêutica ocupacional não só como fonte de pesquisa mas também como tratamento efetivo. Sua proposta aponta para a necessidade de mudanças na atitude para com a loucura e nos hospitais psiquiátricos.




As diferentes atividades realizadas na STOR (Acervo IMNS)
Na prática de Nise, entende-se que nas psicoses o indivíduo regride a fases anteriores do seu próprio desenvolvimento ou até mesmo da evolução da humanidade. Nesse estado, o pensamento abstrato cede lugar ao pensamento concreto, ou seja, a linguagem verbal dá lugar à linguagem imagética. A comunicação passa a se dar através de imagens e não mais pelas palavras.
Nessa distinção, quando o pensamento lógico fica submerso, a linguagem verbal é prejudicada. O pensamento do indivíduo começa a fluir em imagens, e ele passa a se expressar através de reproduções das mesmas. Assim se estabelece a primeira oposição que forma a teoria das imagens do inconsciente: pensamento abstrato (verbo) versus pensamento concreto (imagem). A segunda oposição componente desta teoria seria: mundo interior (imaginação) versus mundo exterior (realidade).

Obras de Emygdio de Barros, Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Carlos Pertuis e Fernando Diniz (da esquerda para direita) (Acervo MII)




É o mundo interno que compõe o que é chamado de inconsciente, e o mundo externo, a consciência. O processo curativo, então, seria o trajeto de ida e volta de um mundo para o outro. Nos indivíduos perdidos em si mesmos, ou loucos, a volta à consciência depende de um relacionamento: primeiro, o contato com atividades artísticas, depois com outras pessoas e o ambiente. Na passagem do interior para o exterior, as imagens criadas nas atividades expressivas se tornam o intermediário entre esses mundos.

O trabalho realizado no Museu de Imagens do Inconsciente demonstra não só as vivências não verbalizáveis sofridas pelos esquizofrênicos, mas também as riquezas e complexidades de cada mundo interior. A proposta é, desde o início, promover a inclusão do louco e romper com o silenciamento da loucura.
Para isso, Nise recorreu à teoria do psiquiatra Carl Jung para embasar seu saber, a partir das ideias do inconsciente coletivo, dos arquétipos e das mandalas. Um saber que desafiou a hegemonia psiquiátrica da época, se estabelecendo como uma psiquiatria rebelde, e que entende os sintomas da doença mental como tentativas de reorganização da psique.
Obra de Fernando Diniz (Acervo IMNS)
Considerando a liberdade, a compreensão e o cuidado como meios de acelerar esse processo. São três os princípios que guiaram o trabalho de Nise da Silveira: o afeto catalisador, as forças autocurativas do inconsciente e a emoção de lidar. Nas atividades expressivas, por meio da construção de imagens e narrativas, o indivíduo quebra o silêncio e se torna autor de suas próprias histórias, estimulando seu reordenamento psíquico.
Esses princípios estabelecem que é com base na compreensão e no cuidado que Nise constrói sua clínica. A partir deles, ela desenvolve as ideias centrais de seu pensamento:
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a expressão do inconsciente através de imagens;
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a manifestação de arquétipos nestas imagens;
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o poder terapêutico dessa expressão, facilitada pelo afeto, seja de monitores ou animais;
Para Nise da Silveira, o afeto é imprescindível no tratamento da loucura, e, por isso, era um fator constante nas atividades da STOR. O afeto tem um potencial catalisador, acelera o processo natural de reordenação das funções psíquicas, reconectando o cliente ao mundo externo. Contudo, ela lembra que satisfazer as necessidades afetivas dos pacientes não é uma tarefa fácil, tendo em vista toda a violência, exclusão e silêncio enfrentadas por eles.
Nas oficinas terapêuticas, os mecanismos que geram o afeto catalisador são a presença do monitor, o tipo de material usado nas atividades e o espaço utilizado. São estes suportes que estimulam o indivíduo a reorganizar a psique, gradualmente voltando a poder lidar com o mundo externo. Mesmo com a personalidade desagregada, um ambiente acolhedor e adequado dá ao psicótico o suporte afetivo que o ajuda a retornar à consciência.

Nise recebe flores de Adelina Gomes (Acervo IMNS)
O termo emoção de lidar surge de um dos clientes do ateliê, que, após confeccionar um gato de tecido, afirma sentir uma grande emoção ao lidar com ele em suas mãos. Nise afirma, com base no filósofo Gastón Bachelard, que o material escolhido diz muito sobre o estado psíquico de quem o manuseia, sobre o que está reprimido. A partir daí, a médica conta que passou a utilizar o termo para nomear sua prática, juntamente com o termo “terapia ocupacional”.
O afeto é, então, um importante acelerador do potencial autocurativo da psique, gerado pela emoção de lidar, ou seja, pelos sentimentos evocados no paciente através de suas relações, sejam elas com os diferentes materiais artísticos, com os monitores, com o espaço do ateliê, ou com animais.

Pintura de Emygdio de Barros (Acervo MII)
Nise da Silveira foi pioneira na terapia com animais. Ao notar que cães e gatos também eram capazes de desempenhar a função de catalisadores, a médica passou a considerá-los co-terapeutas e a estudar as relações afetivas entre eles e seus pacientes. Notou ser muito vantajosa a presença dos animais nos hospitais psiquiátricos, já que são seres calorosos e incondicionais nos afetos, fornecendo a estabilidade necessária nessas relações.
A convivência com os animais co-terapeutas demonstrou que muitos clientes que tinham dificuldade para se relacionar com outras pessoas, conseguiam formar vínculos muito fortes com os animais. Nise, que em sua vida pessoal sempre esteve rodeada por gatos, passou a incluí-los na convivência do hospital. Publicou, em 1998, o livro Gatos, a emoção de lidar, onde aprofunda a temática.

Na psiquiatria rebelde de Nise da Silveira são o afeto catalisador e a emoção de lidar os mecanismos que, por seu potencial terapêutico, reconectam o indivíduo desestruturado ao mundo externo, à consciência. A cura está, portanto, na conexão afetiva entre os seres, seja um louco, um cão, um gato ou uma planta. São as relações que vão gerar o afeto catalisador, impulsionando o processo autocurativo da psique.
Adelina Gomes (Acervo MII)
O pensamento de Nise, apesar de definitivamente revolucionário e reconhecido nos mais diversos campos e países, não causou grandes mudanças nos tratamentos da psiquiatria hegemônica. Pretendia que a terapêutica ocupacional fosse aceita como método terapêutico legítimo, quando realizada corretamente, ao invés de apenas uma prática secundária, auxiliar.
Isso não se concretizou. Para Nise, sua proposta quebrava antigos preconceitos e era muito ambiciosa. No entanto, seu trabalho segue ressoando nas contracorrentes até hoje.